quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Homem do Cartão

Quem for das minhas zonas sabe de quem falo:

Conheço-o á anos, desde que me lembro de mim mesmo.
Africano da Guiné senão me engano. Trabalhador incansável, varredor da Câmara destas ruas imundas.
Lembro-me de a minha Mãe o cumprimentar sempre que com ele se cruzava, e como Ela o fazia, grande parte da população vizinha o fazia e faz.
Este Homem ganhou a simpatia das pessoas pela simplicidade, honestidade e alegria com que encarava e encara a vida.
Recordo-me dele e do seu carrinho de mão sempre carregado de papel e cartão, algo que devia fazer nas horas vagas para ganhar mais algum…

Mas como todos nós este Homem têm uma história que sendo verdade ou mentira não deixa de ter o seu drama, mas também a glória e a grandeza de um ser Humano.
Segundo consta, este Homem veio da Guiné á muitos anos atrás, com o intuito de proporcionar uma melhor vida á mulher, e quando possível traze-la para Portugal também. Mas os anos passaram e diz-se que a mulher engravidou logo após a sua saída da Guiné e fez-lhe crer que o filho era dele, o que para mim e para muitos é um belo golpe para lhe sacar dinheiro.
Adiantando: O Desgraçado trabalha uma vida inteira e todos os meses destes longos anos envia grande parte do seu salário para uma terra e uma mulher e supostamente um filho que não vê há anos.
Como consequência vive abaixo do considerado humilde.

Há já uns tempos fui comprar um franguito para o jantar, e junto á churrasqueira lá estava o pobre diabo. Mas, o que me causou Raiva e vergonha de partilhar a minha espécie com seres semelhantes, foi o dono dessa famosa churrasqueira começar a gozar com ele e com a mulher que ele tem em África. Proferiu insinuações jocosas e infelizes, para não falar de racistas. Chamou-o de “Preto Burro”, foi o que mais me ficou no ouvido…
Mas este homem enganado ou não cumpre o seu dever, dia após dia, mês após mês, ano após ano. Ninguém lhe aponta o dedo na rua por algo de mal que tenha feito. Assumiu uma responsabilidade e leva-a até ao fim.

Quantos de nós, podem afirmar o mesmo.
Quantos de nós, á hora de dormir, sentem o peso na consciência por algo que deviam ter feito e não o fizeram.
Quantos de nós, vivem para o espelho que apenas reflecte a superfície e nunca o que vai cá dentro.
Quantos de nós estão vazios por dentro, sem valores, sem solidariedade.

È Preto…é Burro…é Pobre…vive com muito pouco, mas do pouco ainda arranja para dar.
E nós? Com as nossas casas com aquecimento e não sei quantas assoalhadas, com LCD´S, com os nossos carros e motas, com a nossa roupa de marca…O que demos hoje, ontem, ou nos últimos anos.?...

Quem é que afinal é o ASNO…………………………………………………………

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